Nova Feira Popular: uma oportunidade para Lisboa

Foi em 2003 que com o encerramento definitivo da Feira Popular, Lisboa perdeu uma referência e ponto de encontro de várias gerações de famílias, onde todos conviviam e se divertiam, independentemente do seu estatuto, profissão ou idade.
Em junho de 2016 tive ocasião de apontar as muitas lacunas existentes num documento powerpoint apresentado pelo executivo socialista. Nele, uma empresa externa à CML definia o preço de dois euros para os futuros bilhetes da nova feira e também o custo estimado do empreendimento, avaliado em €70 milhões. Mas nada foi avançado sobre o enquadramento temático.

Havia, no entanto, uma obstinação quanto ao facto de que seria uma concessão e, também, que não seria vocacionada para os turistas. Penso que uma nova Feira Popular temática – mas nunca do tipo Eurodisney ou Isla Mágica – seria a melhor solução, até para retirar alguma pressão dos turistas na zona histórica de Lisboa.

Decorridos oito meses, o executivo socialista vai agora lançar “um concurso público internacional para a conceção, financiamento, construção, exploração e manutenção da nova Feira Popular de Lisboa”.

Ou seja, depreende-se que ficará do lado do vencedor a execução, a gestão e a conceção da própria Feira, o que levanta a seguinte questão: deve o vencedor, sozinho, definir integralmente todas as variáveis do seu próprio negócio?

Se assim for, essa atitude revela a desistência e a incapacidade do atual executivo para definir – tendo em conta a história e características da cidade de Lisboa – uma base de partida para os critérios essenciais do concurso.

Lisboa está ligada às Descobertas e é o berço da globalização. Lisboa é a capital do fado. Lisboa é sinónimo de um património material e imaterial vastíssimo que atrai cada vez mais visitantes de múltiplas nacionalidades e culturas que pretendem conhecer a nossa identidade e autenticidade peculiar, e não aceder a uma oferta descaracterizada. O executivo socialista abdicou da possibilidade – e responsabilidade – de definir quão lisboeta e português será este espaço de atracão? Pretende Fernando Medina entregar simplesmente à lógica economicista de um concurso a identidade da nova Feira Popular, e renunciar à oportunidade de dotar a cidade de um equipamento único? É chegada a altura de respondermos, de uma vez por todas, à pergunta: o que esperam os lisboetas da sua Feira Popular?

Queremos – ou não – que a nova Feira Popular reconheça e espelhe a história e os valores associados à cidade de Lisboa? Não tenho dúvidas que o enquadramento da solução devia passar por uma consulta pública que permitisse ouvir todos os lisboetas. Eu diria mesmo que essa consulta é obrigatória.

Espero que exista ambição e que este executivo – que dispõe de meios e condições ímpares nos últimos anos – cumpra a sua missão de defesa e afirmação da história e da tradição da cidade e do país, como elemento diferenciador e único num mundo cada vez mais global e uniforme.

Se assim for, como desejo que venha a acontecer, estarei disponível para dar contributos. Caso contrário, esta será – apenas por incúria e ausência de visão – mais uma oportunidade perdida e ter-se-á abdicado de um legado que nos convoca, nos une e nos distingue como cidadãos da história e do mundo.

João Gonçalves Pereira

publicado no Jornal Expresso de 25 Fevereiro

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